Canção Fraterna
Irmão negro de voz quente o olhar magoado, diz-me: Que séculos de escravidão geraram tua voz dolente? Quem pôs o mistério e a dor em cada palavra tua? E a humilde resignação na tua triste canção? E o poço da melancolia no fundo do teu olhar? Foi a vida? o desespero? o medo? Diz-me aqui, em segredo, irmão negro. Porque a tua canção é sofrimento e a tua voz, sentimento e magia. Há nela a nostalgia da liberdade perdida, a morte das emoções proibidas, e saudade de tudo que foi teu e já não é. Diz-me, irmão negro, quem a fez assim… Foi a vida? o desespero? o medo? Mas mesmo encadeado, irmão, que estranho feitiço o teu! A tua voz dolente chorou de dor e saudade, gritou de escravidão e veio murmurar à minha alma em ferida que a tua triste canção dorida não é só tua, irmão de voz de veludo e olhos de luar… Veio, de manso murmurar que a tua canção é minha.
Abri a porta companheiros
Ai abri-nos a porta, abri-a depressa, companheiros, que cá fora andam o medo, o frio, a fome, e há cacimba, há escuridão e nevoeiro… Somos um exército inteiro, todo um exército numeroso, a pedir-vos compreensão, companheiros! E continua fechada a porta… Nossas mãos negras inteiriçadas, de talhe grosseiro – nossas mãos de desenho rude e ansioso – já cansam de tanto bater em vão.. Aí companheiros, abandonai por momentos a mansidão estagnada do vosso comodismo ordeiro e vinde! Ou então, podeis atirar-nos também, mesmo sem vos moverdes, a chave mágica, que tanto cobiçamos… Até com a humilhação do vosso desdém, nós a aceitaremos. O que importa é não nos deixarem morrer miseráveis e gelados, aqui fora, no noite fria povoada de xipocués… “O que importa é que se abra a porta”.
Lição
Lição Ensinaram-lhe na missão, Quando era pequenino: “Somos todos filhos de Deus; cada Homem é irmão doutro Homem!” Disseram-lhe isto na missão, quando era pequenino. Naturalmente, ele não ficou sempre menino: cresceu, aprendeu a contar e a ler e começou a conhecer melhor essa mulher vendida ̶ que é a vida de todos os desgraçados. E então, uma vez, inocentemente, olhou para um Homem e disse “Irmão…” Mas o Homem pálido fulminou-o duramente com seus olhos cheios de ódio e respondeu-lhe: “Negro”.